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Jun 30 2009

Projeto educativo e projeto político-pedagógico da escola de ensino médio: tradições e contradições na gestão e formação para o trabalho

Tese de Doutoramento em Educação Brasileira – UFC

A educação brasileira, permeada pela lógica da submissão do projeto educativo dos jesuítas,
das influências francesas, inglesas e dos Estados Unidos da América, passa a ser considerada como problema nacional com a Proclamação da República em 1890. As tentativas de regulamentação e consolidação da função social propedêutica, que nega o trabalho, a
industrialização que demandou a educação instrumental para o trabalho e a redemocratização
do Estado que reorganizou a produção em flexível e impõe a formação do novo tipo de
trabalhador (KUENZER, 1998) apresentam movimentos contraditórios. Em consonância com
estas transformações a concepção técnico-científica de organização adota mecanismos
democráticos-participativos. Como alternativa ao projeto educativo burguês, a educação
politécnica propõe superar a dualidade estrutural e histórica por meio da formação omnilateral
(SAVIANI, 2003). A escola fundamental e média deve guiar-se pelo trabalho como base
excelente da educação (PISTRAK, 2005), portanto, deve vincular a vida escolar com a
transformação social combinando educação escolar com produção material e promover a
auto-emancipação e a emancipação social. Neste contexto, o objetivo geral é analisar a
experiência de reorganização do trabalho educativo na constituição do projeto políticopedagógico
da escola de ensino médio, identificando perspectivas, limites, possibilidades e
resistências. Os objetivos específicos são examinar a evolução do projeto educativo na
história sociopolítica e econômica do Brasil, destacando a gestão do trabalho escolar e a
formação do jovem para o trabalho; analisar os fundamentos, intencionalidades e práticas que norteiam o projeto político-pedagógico e identificar e analisar os limites, possibilidades e
formas de resistência coletiva na gestão do projeto. Optamos como referencial teóricometodológico
pela Teoria Crítica e pelo método de base materialista-histórica. Como
instrumento de coleta de dados quantitativos e qualitativos foram aplicados questionários,
grupos focais e entrevistas semiestruturadas. Entre os questões levantadas destacamos se
escola pública deve seguir o projeto educativo da burguesia – propedêutica – ou deve se
pautar na dimensão profissionalizante, instrumental, por atender ao projeto burguês para o
setor popular? A escola mineralizada tem conseguido ressignificar diretrizes? O projeto
político-pedagógico (PPP) em curso no Liceu do Maracanaú estabelece quatro pilares que
reorganizam o trabalho na escola tendo em vista a formação integral do jovem. Esta escola
pensa concebe e avalia e na contramão da maioria das escolas, rompe com o formato
tradicional de organização do trabalho. As inteligências múltiplas são compreendidas como
princípio, os projetos de trabalho como meio para a transformação do saber popular para o
saber científico com aplicação prática e social dos conteúdos no desenvolvimento de
competências e habilidades, a organização semestral como meio e a avaliação como
monitoramento da aprendizagem. A iniciação cientifica destaca os talentos, melhora os
indicadores e apresenta resultados. Este projeto é contraditório, pois os fundamentos e a
prática pedagógica reafirmam os princípios liberais e o processo de escolarização excludente.
Deste modo, o estudo confirma que é possível reorganizar o trabalho e este se concretiza por
intermédio do PPP. Diante destas novas demandas, as escolas se encontram numa
encruzilhada e sua funcionalidade é colocada em dúvida. Como prognóstico, apontamos o
aprofundamento da crise da educação, da formação do jovem e da sociedade. Urge investir
nas contradições inerentes ao sistema, apropriar-se delas para construção do outro, do
contrário. Cabe, portanto, aos intelectuais e educadores cumprirem com a sua tarefa.
Palavras-chave: Projeto educativo, político-pedagógico, trabalho, gestão e formação.